Reserva Ativa entrevista Coronel Vilanova, Gerente Nacional do Programa de Preparação para a Reserva do Exército Brasileiro (PPREB)

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Desde 2010, o Comando do Exército vem realizando uma série de atividades em todo o território nacional visando o bem estar de seu público interno, seja na ativa ou na reserva, bem como de seus familiares. Inicialmente a Portaria nº 222, de 31 de março de 2010, regulou o Programa de Preparação para a Reserva do Exército Brasileiro (PPREB), um projeto inédito no âmbito das Forças Armadas brasileiras e que demonstra a preocupação da instituição com os milhares de profissionais que dedicam ou dedicaram suas vidas à nossa pátria. Mais recentemente a Portaria nº 063, de 4 de fevereiro de 2015, aprovou as Instruções Gerais do Programa de Preparação e Apoio à Reserva e à Aposentadoria do Exército Brasileiro e deu outras providências. (EB10- IG 02.008).

Os objetivos deste importante marco legal são, dentre outros: motivar os militares e servidores civis a manterem um bom desempenho profissional durante o processo de transição, tendo em vista a realização de projetos pessoais e profissionais, facilitar o acesso às informações relativas aos aspectos de saúde, de lazer, de finanças, familiar e de empreendedorismo que farão parte de seu novo estágio de vida e, finalmente, possibilitar aos militares e servidores civis, ativos e inativos, uma maneira de aproveitar seus potenciais e conhecimentos para desenvolver outras atividades.

Nesse sentido, em 2014 foi assinado um acordo de cooperação entre a Diretoria de Civis, Inativos, Pensionistas e Assistência Social (DCIPAS) e o Portal Reserva Ativa, buscando facilitar a recolocação no mercado de trabalho dos reservistas do Exército, de forma a complementar o PPREB.

O Cel Vilanova, um dos principais responsáveis pelo programa dentro do Exército Brasileiro, é o nosso entrevistado de hoje.

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Reserva Ativa: Cel Vilanova, como o senhor enxerga essa transformação dentro das Forças Armadas, especialmente no Exército, no que se refere ao bem estar do militar e de seus familiares?

Cel Vilanova: Recursos Humanos é, sem dúvida, a área mais sensível do nosso Exército Brasileiro, vivificada num sem-número de atividades que, absortas na rotina diária, por vezes não nos deixam ver que por trás de cada processo, de cada solicitação, de cada autorização ou rejeição está a nossa gente, com suas expectativas e suas necessidades, com suas histórias e a suas esperanças.

Gerenciar pessoas para uma instituição como o Exército Brasileiro é tarefa ampla, complexa e sensível. É ampla, porque envolve diversos segmentos – oficiais, praças, civis, inativos e pensionistas, seus dependentes, homens e mulheres, perfazendo hoje um total de mais de 800 mil vidas, cada uma delas com sua importância e suas peculiaridades.

Para além de todas as dificuldades operacionais envolvidas nas atividades da Força Terrestre – assim como se dá com quaisquer outras Forças Armadas ao redor do globo que mantenham presença e atuação num raio geográfico extenso e prenhe de contrastes culturais e socioeconômicos – existem também efeitos colaterais advindos da vida militar que inevitavelmente afetam a família militar como um todo.

As frequentes movimentações do militar em serviço por diversos pontos dos territórios nacional e estrangeiro ao longo de sua vida significa também o constante deslocamento de sua família, o que contribui para delinear, para seu cônjuge e filhos, um estilo de vida cheio de peculiaridades, destacando-se, dentre elas, as dificuldades atinentes à formação e ao pleno desenvolvimento da vida profissional. Mais do que um problema de ordem privada ou de economia doméstica da família militar, é também um entrave para a atratividade da carreira militar e, consequentemente para o fortalecimento da operacionalidade da Força.

Nesse sentido, a Reserva Ativa (https://portal-reservaativa.curriculum.com.br), portal online de recolocação profissional exclusivo para militares das Forças Armadas, criado em 2013 no âmbito do Comando Militar do Sudeste como complemento ao Programa de Preparação para a Reserva do Exército Brasileiro (PPREB) executado pelo Comando da 2ª Região Militar, surge como uma oportunidade muito interessante para os militares e seus familiares.

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Integrantes da Reserva Ativa visitam as unidades militares junto com a DCIPAS para divulgar o PPREB

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Reserva Ativa: Quais são as ações que estão sendo implementadas nas diferentes áreas do PPREB?

Cel Vilanova: Inicialmente, cabe destacar que o PPREB está sendo estruturado em 08 (oito) áreas: Educação e Cultura; Educação Financeira; Empreendedorismo; Familiar; Integração Social; Aspectos Legais; Lazer; e Saúde. Sendo necessário que sua concepção deva se iniciar nas Escolas de Formação, agregando conhecimentos indispensáveis ao militar ao longo de sua carreira.

Normalmente tem sido observado que os militares e servidores civis em geral apresentam dificuldades em solicitar a reserva/aposentadoria, apesar de terem tempo de serviço para tal. Isso acontece, entre outros motivos, em virtude da especificidade da Instituição, que demanda dedicação extrema e comprometimento, levando o militar/servidor civil do Exército Brasileiro (EB) a ter uma identidade própria na sociedade. Tais características peculiares conduzem o militar/servidor a viver o papel de integrante da Instituição de forma plena, estabelecendo um vínculo muito forte com a Força. Vínculo este que não se rompe, mesmo quando da passagem para a inatividade, o que dificulta sobremaneira o encerramento do ciclo produtivo do militar/servidor civil no EB.

Desta forma, este projeto pretende auxiliar o militar/servidor civil na transição do serviço ativo para a inatividade no Exército e ajudá-lo a encontrar outras possibilidades de se posicionar perante o mundo externo, buscar novos espaços nos quais seja valorizado e reconhecido pelo conhecimento, experiência e por todo legado já construído.

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Reserva Ativa: Essa preocupação com o futuro dos profissionais é característica das grandes empresas e agora o Exército começa a se adaptar a essa realidade. Existe alguma forma de acompanhamento da condição dos reservistas pela Força através de visitas, pesquisas online ou telefonemas?

Cel Vilanova: Durante a vida ativa, o militar/servidor civil sente-se valorizado pessoal e profissionalmente, mantendo uma relação de dependência com a Instituição, vendo no próprio trabalho o sentido para sua vida. Por isso, quando a palavra reserva/aposentadoria aparece na vida de uma pessoa, os resultados são imprevisíveis. Junte-se a isso, o conflito evolutivo com a fantasia da proximidade da morte, ou seja, é o temor do ostracismo e do fim da vida, o que, para algumas pessoas, é o conflito dominante deste momento.

Neste mister, segundo dados do IBGE, a expectativa média de vida aumentou 20 anos nas últimas décadas. Já em 2025 haverá mais idosos do que crianças no planeta. Essas mudanças causam impacto na sociedade, principalmente nas relações de trabalho e família. Neste caso, a introdução de políticas de bem-estar e integração social e profissional para o envelhecimento e para a aposentadoria chega à nossa instituição como uma necessidade.

O Programa de Preparação para a Reserva e Aposentadoria do Exército Brasileiro, corporativo e com ações diversificadas, foi concebido a partir de reflexões sobre a missão, visão de futuro e valores da Instituição, com base nos desafios vindouros, em especial no que se refere à responsabilidade social, que pressupõe uma crescente harmonização e humanização nas relações com o pessoal, calcados no seguinte lema: o Exército Brasileiro constitui-se de pessoas e evolui com elas.

A ideia é de que o PPREB funcione de forma virtual, por meio de um portal que universalize o acesso via internet por parte de todos os militares e, também, na forma presencial, com a criação de núcleos de atendimento em âmbito regional (Serviço de Assistência Social Regional).

A metodologia presencial aplicada constará de atividades interativas e motivacionais, com conteúdo expositivo (palestras, demonstrações, workshops, entre outras), dinâmicas (terapias de grupo), entrevistas individuais e em grupo, uso de planilhas, análise de casos e visitas, tudo inserido num “Curso de Preparação para o Ingresso na Reserva”, com funcionamento no âmbito das respectivas Regiões Militares.

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A assistência social de seus militares é uma das áreas de atuação do Exército Brasileiro

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Reserva Ativa: O que as empresas brasileiras podem esperar dos reservistas que estão à disposição para novas oportunidades profissionais no mercado de trabalho?

Cel Vilanova: As pessoas estão vivendo cada vez mais e, consequentemente, a população brasileira está se tornando cada vez mais idosa. Pesquisas do IBGE mostram que em 2030 o Brasil terá 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos, ou seja, 14% da população.

Por outro lado, os militares fazem parte de uma força de trabalho ainda jovem e altamente qualificada. A guisa de exemplo um Coronel ou Subtenente , no caso das praças, se aposenta com aproximadamente 50 anos. Isso sem falar dos Oficiais e pracas temporários que ao encerrarem o Serviço Militar ainda na tenra idade (entre 20 e 30 anos) retornam a sociedade com valores agregados como disciplina, liderança, reaponsabilidade, lealdade, objetividade, dentre outros que fazem diferença no mercado de trabalho em geral.

Desta forma acredito que a Reserva Ativa deverá se transformar em curto prazo na ferramenta chave de inclusão do militar no mercado de trabalho, incentivando-os a cadastrarem seus currículos e desta forma criando um círculo virtuoso de servidores que deixam a Força e são absorvidos no mundo civil.

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Reserva Ativa: O senhor pode nos contar um pouco como é a preparação para a reserva nas Forças Armadas de outros países? Soubemos que esteve nos EUA recentemente conhecendo o programa do Exército Americano. Quais são os principais pontos a serem destacados por lá?

Cel Vilanova: As bases militares norte-americanas contam com escolas gratuitas para os dependentes de militares até o nível de ensino médio. Além disso, dispõem de uma Seção de Educação, onde profissionais orientam os militares sobre as possibilidades de ensino superior na região e de ensino à distância (pela internet).O Exército dos EUA, a semelhança do que ocorre no Brasil, paga para seus militares fazerem alguns cursos superiores (graduação e pós-graduação) em instituições de ensino superior civis, dependendo da carreira e especialização do militar.

Todos os militares da ativa, e não somente os de carreira, desfrutam de várias vantagens de cunho pecuniário no país: muitas faculdades concedem descontos para militares e algumas podem ministrar aulas no interior dos Fortes; muitas lojas de roupas, bares, hotéis, museus, cinemas e atrações turísticas, por todo o país, concedem descontos a militares (cerca de 10% e, às vezes, isenção de cobrança).

Ao contrário do que ocorre no Brasil, lá com 20 anos de serviço, o militar pode passar para a reserva renumerada, recebendo 50% do valor dos seus rendimentos e mantendo o direito à assistência de saúde pela vida inteira, bem como acesso às instalações comerciais dos Fortes que vendem produtos sem cobrar imposto, tais como o Exchange (loja de departamentos) e Commissary (supermercado). Para os veteranos, os bancos disponibilizam uma linha de crédito chamada VA Loan, que é garantida pelo US Department of Veterans Affairs. Nesse tipo de empréstimo, é possível financiar até 100% do valor do imóvel e os juros são mais baixos dos que os praticados no mercado.

No que tange especificamente a preparação para a reserva o “Army Transition Assistance Program” (TAP) consiste em uma seção chamada Escritório de Serviços de Aposentadoria (RSO, na sigla em inglês) existente em cada Forte responsável por assistir o pessoal na preparação para a reserva, orientando os militares e suas famílias psicologicamente, profissionalmente, economicamente e quanto aos direitos e benefícios a que fazem jus, no momento da passagem para a reserva. Essa Seção promove estágios de curta duração para todos os militares, nos diferentes postos e graduações, visando prepará-los para a inatividade.

Quanto a qualificação e apoio à colocação no mercado de trabalho de dependentes , como no caso das esposas que, devido à grande mobilidade dos militares, têm dificuldade de se estabelecer profissionalmente, existe a seção “Army Community Service” que orienta e contribui para o emprego de cônjuges de militares no mercado local.

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Visita realizada pelo Cel Vilanova em 2014 ao Exército Americano

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Reserva Ativa: Qual a importância dos familiares dos militares durante o serviço ativo e como eles podem ajudá-los no momento da passagem para a reserva?

Cel Vilanova: Os relacionamentos satisfatórios e as atividades prazerosas são fatores de suporte nessa difícil etapa da vida e a família, sendo talvez a rede de suporte mais importante nesse processo de passagem para a reserva/aposentadoria.

Por se tratar de uma área sensível, as ações desta área normalmente são conduzidas de forma presencial e multidisciplinar pelas Seções de Assistência Social das Regiões Militares e desenvolvidas através de reuniões de cunho psicoterapêutico, exercícios e dinâmicas de grupo, com o objetivo de diagnosticar (levantando aspectos conflitantes), trabalhar (apresentando sugestões que possibilite tornar satisfatória a convivência do militar/civil junto à sua família) e avaliar o relacionamento familiar com vistas a minimizar as dificuldades e os possíveis problemas psicológicos acarretados aos militares e civis que passam para a reserva/ aposentadoria, bem como o impacto provocado pelo processo de transição do trabalho para o pós-trabalho.

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Reserva Ativa: Quais são as perspectivas a curto e longo prazo do PPREB? Quais projetos devem ainda ser implementados pela DCIPAS?

Cel Vilanova: É sabido que uma preparação adequada e bem planejada, ao longo da carreira e particularmente durante os últimos anos de serviço ativo, proporcionará ao participante do Programa, objeto do presente projeto, uma transição de forma natural e mais agradável. Com base nesse entendimento e alinhado com a Política Nacional do Idoso, que determina a criação e a manutenção de programas de preparação para aposentadoria nos setores públicos, o PPREB desenvolverá ações planejadas focadas na realidade atual, englobando as diversas situações que serão enfrentadas pelo militar na reserva e civis aposentados, particularmente no que se refere ao seu ajustamento à nova realidade.

Atualmente, a DCIPAS busca otimizar as modalidades de assistência social, hoje elencadas pela legislação e praticadas pelo Exército, ampliando, sempre que possível, o conceito tradicional, de forma a fazer abranger novas medidas de apoio assistencial à família militar.

Podemos afirmar que para o Exército Brasileiro a efetiva implementação do PPREB, em que pese a atual dificuldade de recursos orçamentários, será uma medida de responsabilidade social e de manutenção ou mesmo melhoria de sua imagem, na medida em que os integrantes da Força, ao passarem para a inatividade, juntamente com suas famílias, terão um futuro mais digno e certamente manterão e divulgarão a imagem da Instituição sempre no mais alto conceito.

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Reserva Ativa: Que conselhos o senhor daria para quem está prestes a se aposentar ou ir para a Reserva?

Cel Vilanova: Como nos ensina o Professor Armelindo Girard “podemos comparar a vida como um jogo de futebol, com dois tempos iguais e um intervalo. O primeiro tempo corresponde do nascimento à vida profissional e o segundo tempo da aposentadoria até a morte. Assim como o jogador de futebol faz um intervalo entre os dois tempos, para descansar, tomar água, trocar de camisa, ouvir o técnico e estabelecer as estratégias para o segundo tempo, as pessoas também precisam fazer um intervalo e preparar-se para a aposentadoria”.

Desta forma, assim como as pessoas se preparam para o trabalho precisam preparar-se para a reserva. É a oportunidade de repensar sua vida, da fazer um balanço de suas realizações no campo pessoal, profissional e familiar, computando os erros, acertos e tudo aquilo que deixou de cumprir. É o momento de redefinir sua missão pessoal, suas novas atividades, resgatando seus valores, com reforço nas relações familiares, de amizade e na melhoria da qualidade de vida.

Todas as experiências do dia-a-dia na caserna nos enriquecem. Por isso é importante desfrutar de cada uma delas retirando o máximo possível de proveito, sem desperdiçar nenhuma das oportunidades que a vida militar nos oferece. E a passagem para a reserva é essa oportunidade. Aproveite-a, transformando-a na melhor fase de sua vida. E isso depende unicamente de você. Aproveite e cadastre-se você e sua família no site portal-reservaativa.curriculum.com.br e procure sua Região Militar (Seção de Assistência Social) para se matricular nos cursos presenciais do PPREB.

BOA SORTE!

Um abraço,

Coronel R/1 PTTC Vilanova

Gerente Nacional do PPREB

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